Urubu Na Fartura

Urubu sempre dizia que torcia pelo sucesso de Calango. Enquanto o amigo tinha pouco, comemorava cada pequena conquista. Mas quando Calango começou a prosperar e ultrapassá-lo, a amizade deu lugar à inveja e à competição. Uma fábula sobre aquelas pessoas que gostam de nos ver bem... desde que nunca estejamos melhor do que elas. **Moral: Amigo verdadeiro não transforma sua conquista em competição.**

9/13/20262 min read

Urubu e Calango eram amigos havia muitos anos.

Quando Calango passava dificuldade, Urubu estava sempre por perto.

— Compadre, qualquer coisa que precisar, pode contar comigo.

Às vezes levava um pouco de milho, emprestava uma ferramenta e até dava alguns conselhos.

Calango era muito agradecido.

— Um dia ainda vou poder retribuir tudo que você faz por mim.

Urubu sorria.

— Que isso, compadre! Amigo é pra essas coisas.

O que Calango não percebia era que Urubu gostava daquela amizade enquanto se sentia melhor do que ele.

Até que a vida de Calango começou a mudar.

Depois de muito trabalho, sua pequena plantação prosperou. Ele consertou a casa, comprou algumas cabeças de gado e uma motinha usada para ir até a cidade.

Todo feliz, foi contar ao amigo.

— Compadre! Finalmente consegui comprar minha motinha!

Urubu forçou um sorriso.

— Bonita... mas eu não gastaria dinheiro nisso. Dizem que esse modelo dá muito problema.

Calango estranhou.

Tempos depois, conseguiu aumentar sua plantação.

Urubu comentou:

— Cuidado, compadre. Quem cresce rápido demais também cai rápido.

Cada conquista de Calango vinha acompanhada de uma crítica.

Até que certo dia Calango conseguiu vender uma grande colheita.

Fez um almoço em casa para comemorar e convidou alguns amigos.

Urubu apareceu, comeu, bebeu e levou até uma sacola de comida para casa.

Na saída, encontrou outro conhecido na estrada.

— Esse Calango está se achando demais depois que começou a ganhar dinheiro — disse Urubu. — Quero ver quanto tempo essa fartura vai durar.

Por acaso, Calango vinha logo atrás e ouviu tudo.

No dia seguinte, Urubu apareceu como se nada tivesse acontecido.

— Bom dia, compadre! Sobrou daquela carne de ontem?

Calango ficou olhando para ele por alguns segundos.

— Sobrou.

Urubu abriu um sorriso.

— Então separa um pouquinho pra mim.

Calango respondeu:

— A carne eu posso dividir. O que não vou mais dividir com você são meus sonhos, meus planos e minhas conquistas.

Urubu se assustou.

— Que isso, compadre? Eu sempre fui seu amigo!

Calango respondeu:

— Enquanto eu tinha menos que você, sim. Quando eu precisei, você me ajudava e eu agradeço por isso. Mas depois que comecei a crescer, percebi uma coisa: minha dificuldade nunca incomodou você. Minha felicidade, sim.

Urubu ficou em silêncio.

Calango continuou:

— Tem gente que estende a mão para ajudar você a levantar, mas torce para que você nunca fique de pé o bastante para passar dela.

Urubu abaixou a cabeça e foi embora.

Naquele dia, Calango aprendeu que nem toda ajuda nasce de um coração verdadeiro e que algumas amizades sobrevivem à dificuldade, mas não suportam o sucesso.

MORAL: O amigo interesseiro gosta do que você oferece. O invejoso gosta de você enquanto acredita que está acima de você. O verdadeiro amigo permanece quando você precisa e também comemora quando você vence.

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